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Nota de programa | O Senhor Bruschino

Por: Camila Fresca

“Depois da morte de Napoleão, surgiu um outro homem do qual se fala todos os dias em Moscou e em Nápoles, em Londres e em Viena, em Paris e em Calcutá. A glória desse homem conhece apenas os limites da civilização, e ele não tem 32 anos! Vou tentar traçar um esboço das circunstâncias que, tão jovem, colocaram-no nessa altura.”

É dessa forma que Stendhal inicia, em 1824, Vida de Rossini. À época, o francês era apenas um obscuro escritor de 40 anos, enquanto Rossini, pouco passado dos 30, era um compositor famosíssimo. O livro foi publicado poucos meses antes da chegada de Rossini a Paris e tornou-se o maior sucesso editorial da vida de Stendhal, dando-lhe fama imediata. A segunda edição de Vida de Rossini saiu no mesmo ano e, pouco tempo depois, foram feitas versões em alemão, inglês e italiano. As palavras de Stendhal e o sucesso do livro dão uma ideia da fama que Rossini desfrutou desde muito jovem.

Nascido em 1792 na cidade italiana de Pesaro, Gioacchino Rossini vinha de família humilde, com pais músicos que atuavam com trupes ambulantes. Iniciou-se na música ainda criança e aos doze anos substituiu de última hora um dos cantores da trupe de seus pais, fazendo sua estreia no teatro. A esta altura a família havia se estabelecido em Bolonha, onde Rossini fez estudos musicais. Aos 15 anos ele escrevia Seis sonatas a quatro, ancorado em técnicas que havia aprendido examinando partituras de Haydn e Mozart. Em 1810, aos 18 anos, deixou o Liceo Musicale quando o Teatro San Moisè de Veneza lhe encomendou uma farsa musical. Rossini compôs La cambiale di matrimonio.

Era o início de uma carreira fulgurante. Rossini compunha com uma facilidade desconcertante e num intervalo de 17 anos escreveu cerca de 40 óperas, sendo que mais da metade permanece no repertório. No ano seguinte à La cambiale estreava L’equivoco stravagante. E, em 1812, foram nada menos do que seis títulos, incluindo L’occasione fa il ladro, a qual se seguiu, em 1813, Il signor Bruschino. Foram óperas de sucesso variável, antes que as estreias de Tancredo e L’italiana in Algeri dessem ao compositor de 21 anos fama internacional e o status de ídolo da ópera italiana, com árias de suas óperas cantadas pela população em locais públicos.

Chamada de farsa lúdica em um ato, Il signor Bruschino foi a quinta comédia que o compositor escreveu para o Teatro San Moisè. Ao contrário do sucesso de La cambiale di matrimonio, no entanto, Bruschino revelou-se um fracasso retumbante. Subiu ao palco no dia 27 de janeiro de 1813 mas logo foi substituída. Na Itália, a ópera foi reapresentada apenas uma vez no século XIX. E, em 1857, conheceu algum sucesso numa adaptação de Jacques Offenbach no Théâtre des Bouffes Parisiens em Paris.

Aparentemente, a inclusão de piadas e brincadeiras enfureceu a plateia e fez muitos acreditarem que estavam sendo ridicularizados. A primeira das irreverências a desagradar o público veneziano é justamente um dos aspectos mais lembrados da obra hoje: na abertura, Rossini pede que os segundos violinos batam com o arco nos suportes de velas que iluminavam as estantes de partitura. Algumas expectativas musicais não atendidas – como a pouca exploração dos registros agudos da soprano e, por outro lado, a tessitura aguda pedida a um dos baixos somaram-se aos desagrados.

O enredo também não colaborou para uma boa recepção. O libreto é de Giuseppe Maria Foppa, parceiro com quem Rossini já havia escrito duas óperas, e baseia-se na farsa francesa Le fils par hazard, na qual um jovem rapaz oriundo de uma família abastada, Florville, se faz passar por outro, o filho de Bruschino. Florville quer se casar com Sofia, protegida de Gaudenzio, que no entanto está prometida em casamento ao filho do senhor Bruschino.

Se até aqui a história de desencontros amorosos encaixa-se no que se esperava de uma comédia típica da época, o libretista vai além: Florville convence não apenas Gaudenzio de que é o filho de Bruschino, como ambos tentam convencer o próprio Bruschino de que Florville é seu filho. Bruschino filho, enquanto isso, está detido por dívidas. Finalmente, Bruschino pai percebe a trama e participa dela, e os enamorados podem se casar antes que Gaudenzio descubra que foi enganado.

O fracasso de Il signor Bruschino marcou o fim do relacionamento de Rossini com o Teatro San Moisè. Porém, apenas dez dias depois, o público veneziano que esteve em outro teatro, o La Fenice, recebeu com enorme entusiasmo o “melodramma eroico” Tancredi. Começava aí a consagração de uma trajetória precoce de sucesso. De 1813 a 1823, não se passou um ano sem que Rossini estreasse ao menos uma ópera. Em 1815, ele foi convidado para ser o diretor musical dos teatros San Carlo e Fondo, ambos em Nápoles. E, no ano seguinte, aos 24 anos, escreveria sua obra mais famosa, O barbeiro de Sevilha.

A sequência de sucessos o levou não apenas a toda a Itália mas também a ser recebido com pompa em várias cidades da Europa. Datada de 1829, Guilherme Tell foi sua última ópera e marca sua aposentadoria do meio musical. Rossini tinha 37 anos, possuía uma posição excepcional no mundo da ópera, mas era também um homem esgotado física e mentalmente.

Como se pode imaginar, numa produção operística de tal volume nem tudo é genial ou mesmo original. A abertura de O barbeiro de Sevilha, por exemplo, já havia sido utilizada em duas óperas anteriores. Il signor Bruschino, por sua vez, teria seu conteúdo musical reutilizado em óperas tardias. Para o pesquisador Jean-Francois Labie, o ponto forte da produção rossiniana não está na caracterização dos personagens nem nos coloridos de clima e ambientação. O irresistível de suas obras, sejam elas líricas ou bufas, estão no “élan quase furioso que encontrava o princípio de sua força na aceleração rítmica e nos célebres crescendo tão típicos da música rossiniana. Tudo e todos parecem estar sempre correndo nessas obras compostas às pressas e meio caóticas. Essa permanente urgência, que é a marca de fábrica da ópera rossiniana, constitui também um de seus principais encantos”[1].


[1] Jean-François Labie in Jean & Brigitte Massin, História da música ocidental, p.653.

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