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Eiko Senda compara direção de Roberto Alvim com teatro Nô
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Eiko Senda nasceu em Osaka, no Japão, e começou a estudar música aos três anos de idade. Desde 1995, vive entre o Brasil e o Uruguai, assumindo papeis de soprano nos principais teatros da América Latina. Fez mais de 80 apresentações de Madama Butterfly (Puccini) e se especializou em óperas do compositor brasileiro Carlos Gomes, de quem já interpretou Maria Tudor, Condor e Lo Schiavo.

A cantora destaca-se também na interpretação da lírica wagneriana e italiana, consagrando-se nos papeis de Senta (Der Fliegende Holländer) e Isolde (Tristan und Isolde). Em seu repertório ainda constam Alice Ford (Falstaff, Verdi), Amelia (Un Ballo in Mashera, Verdi), Tosca (Tosca, Puccini) e Donna Anna (Don Giovanni, Mozart).

Eiko interpreta Héstia em Artemis, ópera de Alberto Nepomuceno que estreia nesta quinta-feira (25) no Theatro São Pedro. Sob a direção de Roberto Alvim, ela vive uma mulher em desespero, abandonada à fome e ao frio pelo marido, Hélio, escultor obcecado pela estátua da deusa Artemis, sua criação.

A cantora fala sobre os desafios de encarar o personagem, de trabalhar pela primeira vez com Roberto Alvim e da intimidade musical que sentiu com a obra, que até um mês depois de aceitar o papel, desconhecia.

Como você recebeu o convite para participar da ópera?

Ano passado, minha empresária ligou contando do convite para o papel e eu aceitei mesmo sem ter visto a obra. Quando recebi a partitura, comecei a cantar e logo senti a influência de Wagner, de Strauss e tem um momento que é muito parecido com Mahler. Isso me fez sentir muita intimidade e simpatia pelo trabalho.

Em sua maioria, as óperas são escritas e cantadas em italiano. Como é para você cantar uma ópera em português?

Estou acostumada a cantar em alemão, inglês, francês e italiano. Português não é fácil de cantar, ainda mais com a linguagem específica usada por Coelho Neto.  Por isso, inclusive,  trocamos algumas terminações para adaptar ao canto.

Héstia é uma mulher em desespero, que tem seus papéis de mãe e mulher anulados na história. Como você se preparou para interpretá-la?

Eu já cantei Salomé, cortando a cabeça de João Baptista, eu sempre faço Lady Machbeth , que está com as mãos sujas de sangue, e Nabuco, na qual a personagem Abigail mata muitas pessoas. Então,  estou “acostumada” com essas temáticas sanguinárias. O que mais me toca é a condição desta mulher – a filha é uma criança violada pelo pai e ela permite aquilo. Héstia não tem uma posição de feminilidade. Apesar de ser mãe e esposa, seu papel não é aceito nessa história.

A ópera Artemis é dirigida por Roberto Alvim, consagrado por sua atuação em teatro. Como tem sido essa experiência com ele?

Eu sempre adoro trabalhar com diretor de teatro porque eles têm outra expectativa e uma visão global. Acho que todas as artes são como ovo, mas as pessoas da ópera estão sempre olhando para um lado só e ignoram o resto. No caso do diretor de teatro, existe uma da visualização do todo da obra, é muito mais saudável e a gente aprende muito.

A princípio, fiquei chocada com o trabalho do Roberto Alvim. O trabalho parecia uma espécie de terapia gestáltica, de constelação familiar. Ele trabalha com energia, por isso nós estamos quase sem fazer nada no palco, mas temos que estar prontos internamente, ou seja, psicologicamente tínhamos que estar muito  íntimos dos personagens. Existe uma posição específica que dá a sensação de angústia ou certa tensão para quem está assistindo e eu acho isso fantástico. No teatro Nô, que surgiu no Japão há mais ou menos 700 anos, é exatamente assim: as pessoas colocam uma máscara que não tem expressão e atuam com aquilo que estão sentindo.  Você expressa esse sentimento com o movimento mínimo do teu corpo, a expressão está naquela respiração que você quase não escuta.

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