La Clemenza di Tito | Nota de programa

A Clemência e a Generosidade como Armas
Por Ligiana Costa

A humanidade precisa aprender com Tito. O soberano da benevolência, o clemente por natureza, o generoso imperador que se debate entre obrigações e ética, se mostrando capaz de perdoar até mesmo seus conspiradores. Os líderes precisam conhecer Tito, o césar que divide suas riquezas com miseráveis vítimas de um vulcão aterrador e bendiz uma mulher que não aceita ser sua cônjuge por amar outro homem. Se Titus Vespasianos, o imperador romano que reinou entre 79 e 81 A.C., era de fato este ser benevolente não podemos afirmar , mas é fato que sua fortuna o descreve deste modo, como por exemplo declara Suetonius Tranquillus em “Vidas dos doze césares”:

De todos os que lhe pediam algum favor, ele não mandava ninguém embora sem esperanças. E quando seus ministros lhe diziam que ele prometera mais do que ele poderia realizar, ele respondia: “Ninguém deve sair abatido de uma audiência com seu príncipe.”

Titus entra para a história não somente por seu reinado pacífico e generoso, mas também por suas obras públicas, incluindo a conclusão do Coliseu. É esta a figura escolhida para sintetizar a celebração da coroação de Leopoldo II como rei da Bohemia em 1791, em Praga. Como todas as coroações do século 18, as coroações de Leopoldo II eram extremamente teatrais (por vezes o próprio imperador atuava) e a associação com o personagem histórico de Tito era perfeita para este momento. Com a revolução francesa e com a circulação de panfletos revolucionários, era fundamental um libreto que colocasse o soberano em posição virtuosa e sábia, especialmente um soberano irmão de Maria Antonieta, como era o caso de Leopoldo II.

É interessante observar que o conceito de “clementia austriaca” era associado há algum tempo com a casa dos Habsburgo e até mesmo a imagem de Tito, imperador benevolente, já havia sido associada ao avô de Leopoldo (Carlos IV) na estreia do libreto de Pietro Metastasio (1734), que seria posteriormente adaptado por Caterino Mazzolà e musicado por Mozart . Leopoldo II, de fato, se consagrou como um verdadeiro humanitário; em seu longo período como Gran Duque da Toscana ele aboliu a pena de morte, reabilitou jovens infratores e instituiu reformas de saúde pública e constitucionais.

Podemos dizer que não somente a monarquia estava em plena crise quando o mundo ouviu os primeiros acordes da Clemenza di Tito, de Mozart, mas a própria ópera séria também via seu declínio. As introduções às árias, as passagens virtuosísticas, os ritmos pontuados eram objeto de ironia e paródia para o próprio Mozart que, inclusive pela especificidade do gênero, relutou em aceitar a encomenda. Mozart, aliás, não era a primeira opção na lista de compositores escalados para esta empreitada, o Kapellmeister Antonio Salieri já havia recusado o trabalho e Mozart (que estava absorvido pela criação de sua Flauta Mágica) acabou por aceitar.

Encomendada poucas semanas antes da data da estreia , Tito não teve uma excelente recepção em sua première. Provavelmente pelo fato dos convites terem sido distribuídos somente entre oficiais, membros da corte e convidados, e terem sido deixados de fora do teatro os melômanos que em geral guiavam as reações do público entre gritos e assobios. Fato é que a consorte do imperador, Maria Luisa de Bourbon, teria escrito que La Clemenza di Tito era “una porcheria tedesca” (uma porcaria alemã) e que o aristocrata Johann Zinzendorf fez a seguinte observação sobre o evento como um todo: “A corte não chegou até às sete e meia. Nós fomos presenteados com um espetáculo maçante, La Clemenza di Tito… Foi extremamente difícil sair daquele teatro.” A situação parece ter sido revertida, como o próprio Mozart conta em uma carta de outubro a Constanze, depois de aberta ao público normal, a ópera foi finalmente recebida com estrondosos aplausos.

Voltando ao drama, observemos as três pontas do triângulo que formam a trama deste libreto: Tito, Sesto e Vitellia. Cada um destes personagens é uma variação dos embates morais agitados pelas paixões da alma, pela ética e pela moral. A Vitellia, a única mulher do triângulo, toca a personificação da vingança, da inveja, da ganância e do descontrole. Preterida pelo imperador Tito, Vitellia tem a absoluta certeza de que deveria ser a escolhida para ocupar o lugar de imperatriz, afinal seu pai havia sido imperador, mas Tito inicialmente se interessa mais em seguir seus instintos passionais que as regras do império. Tito amava Berenice, princesa judia, que se quer aparece nesta trama (mas que em outras versões do drama chega a ser personagem principal), pois quando encontramos Tito ele já havia passado por seu primeiro teste: pedir que Berenice voltasse para seu país, pois um imperador romano não deveria se casar com uma estrangeira. Tito escolhe o reino, mas fica clara na narrativa de Annio sobre a despedida a luta interna do soberano: Bem, nós sabemos que Tito precisou/ Ser inteiramente herói para superar o Tito amante/ ele conseguiu mas lutou/ ele não estava oprimido/ mas também não estava tranquilo/ naquele rosto /(que seja dito para sua glória)/ vimos a luta e a vitória.

Sesto amava Vitellia e Vitellia não amava ninguém. Sesto, personagem originalmente escrito para ser interpretado por um castrato, é quem guia a ação emotiva da ópera. Amigo do imperadorl mas apaixonado pela terrível Vitellia, Sesto se deixa manipular ao ponto de se tornar um traidor daquele que verdadeiramente o ama (Tito: E você, querido Sesto, me siga/ e deixe de lado suas dúvidas/ Você terá sua parte no trono/ e tanto te elevarei/ que pouco restará/ dessa vasta lacuna/ que os deuses colocaram entre Sesto e Tito).

Tito amava Sesto que amava Vittelia que não amava ninguém. Sesto, que não se identifica com esta figura de violent man que Vitlelia tenta lhe impor, se debate longamente (Nunca pensei que fosse/ tão difícil ser mal) mas acaba por ceder e iniciar o plano de Vitellia: pôr fogo no Capitólio e, em meio à confusão, esfaquear Tito. Atrapalhado por não saber mesmo ser mal, Sesto tenta desistir, mas é tarde demais e decide realizar a tarefa mais árdua: esfaquear o imperador. Sesto esfaqueia a pessoa errada (Freud explica), mas acredita ter assassinado o imperador (Ah, onde posso me esconder/Terra, abra e me engula) e acaba preso no início do segundo ato.


Entre os critérios da ópera séria está a oposição entre os dois atos, o primeiro termina idealmente em uma turbulência, que será aliviada no segundo. É no segundo ato que se descobre que Tito, na realidade, não morreu e é no segundo ato que ele enfrentará o maior teste de seus princípios. Já no primeiro ato, Tito havia demonstrado sua generosidade e solidariedade ao receber os presentes e tributos das províncias e fazendo uma distribuição de renda em socorro das vítimas do vulcão em Pompeia (As pessoas miseráveis/ estão fugindo/ mas a pobreza oprime/ aqueles poupados pelo fogo/ Que aquele ouro sirva/ para consertar a tragédia /de todas as vítimas). Pois é no segundo ato que Tito tem, dizíamos, seu grande teste. Entrará para a história dos césares como o clemente ou como mais um imperador? Ao saber que quem tentou assassiná-lo foi Sesto, seu amigo, reluta longamente em assinar ou não a sentença, pede para ver e ouvir o que ele tem a dizer e aqui é Sesto que é colocado à prova: entregar a mandante do crime ou não? Sesto é leal, por mais que saiba que de nada lhe serviu sua lealdade, e nada fala. Mesmo com seu silêncio sobre os motivos de seus atos, Tito decide pelo perdão com a ária que poderia ser um hino para um novo tipo utópico de governantes (Se um coração duro, deuses amigos, / é necessário para o império/ tirem de mim o império /ou me deem outro coração/ Se eu não posso garantir a lealdade/ dos meus reinos com o amor/ Eu não quero uma lealdade/ Que seja fruto do medo). Perdoada também acaba sendo Vitellia, que se entrega na tentativa de poupar Sesto e que com este gesto demonstra ter aprendido um pouco de amor com estes dois. Povo feliz e amado por seu governante, assim termina esta ópera.

A humanidade precisa aprender com Tito.