A vida de Leoš Janáček (1854-1928)

Embora Leoš Janáček (1854-1928), pelo ano em que nasceu, pertença à geração de Antonín Dvořák (1841-1904), sua obra é vista como uma da mais expressivas manifestações musicais do século XX, o que o coloca na galeria de compositores duas gerações mais jovem que ele. A vida e a obra de Janáček estão intimamente ligadas à cidade de Brno, onde viveu desde a juventude. Graças à sua atividade incansável como compositor e gestor, foi de extrema importância para o desenvolvimento da vida cultural da cidade, a segunda maior da República Tcheca.

 

Leoš Janáček nasceu em Hukvald, em 3 de julho de 1854. Foi o nono dos quatorze filhos do professor Jiří Janáček e de Amálie, nascida Grulichová. Em suas recordações de infância, menciona a escola da cidade natal, as colmeias de seu pai, a colina conhecida como Babí Hůra e o coro da capela, onde cantava em missas festivas. Na escola seu desempenho era mediano, mas manifestava um talento incomum para a música. Problemas de saúde de seu pai e dificuldades financeiras fizeram a família decidir que Leoš fosse estudar em uma fundação que atendia meninos musicalmente talentosos de famílias pobres nas cidades de Kroměříž e Brno. O pai de Janáček era amigo do compositor e diretor da fundação de Brno, Pavel Křížkovský, então optaram pela escola de Brno, que ficava perto do mosteiro augustiniano Králov, no bairro de Brno Velha. Aos onze anos, Leoš foi para Brno e, de repente, sua infância acabou.

 

Fui aceito como aluno de canto em Brno e em Kroměříž, mas meu pai optou por Brno. Eu e minha mãe, temerosos, passamos a noite em um quartinho escuro da praça Kapucínské.

Eu de olhos abertos. Ao amanhecer, só queria sair, sair!

Minha mãe me deixou na praça do mosteiro de Králov e foi embora com passos pesados.

Eu com os olhos cheios de lágrimas e ela também.

Sozinhos. Pessoas estranhas, sem coração; escola estranha, cama dura e um pão mais duro ainda. Nenhuma manifestação de afeto.

Nascia um mundo exclusivamente meu. Tudo nele desabava.

Papai morreu; uma crueldade inimaginável.

Uma Vista da Vida e Obra, 1924

 

No mosteiro Agostiniano atuavam pessoas destacadas, entre elas o compositor Pavel Křížkovský, o fundador da genética Johann Gregor Mendel, e, principalmente, o iluminado abade Cyril Napp. Aos meninos da fundação de Brno Velha, que eram chamados de azuis, era oferecida uma minuciosa formação musical; também participavam de missas na basílica da Ascensão da Virgem Maria, produziam música para o mosteiro e se apresentavam em concertos e performances teatrais em Brno. Cinquenta anos depois, Janáček recordou sua vida no mosteiro na composição Pochodu Modráčků (A Marcha dos Azuis) escrita para o sexteto de sopro Mládí.

 

O mosteiro agostiniano proporcionou a Janáček não apenas uma boa base musical, mas também uma cultural geral muito sólida. Entre 1866 e 1869, estudou na escola alemã de ensino médio de Brno Velha e, depois, de 1869 a 1872, na Escola Normal eslava. Seu pai queria que fosse professor, portanto seu caminho estava traçado. No ano em que concluiu os estudos, o diretor do coro de Brno Velha, Pavel Křížkovský, viajou para Olomouc e Janáček foi convidado para substitui-lo durante sua ausência. Ele aceitou e, um ano depois, passou a ocupar o lugar de regente do coro da Associação de Artistas de Svatopluk (1873-1876). Nesta época começou, inspirado por Křížkovský, a compor para vozes masculinas, entre as quais as obras Oráni e Nestálost Lásky. E mais: o jovem Janáček resolveu aprofundar sua formação musical na Escola de Órgão de Praga e assim foi, gradativamente, se afastando da carreira de docente.

 

Exame de admissão da Escola de Órgão de Praga.

Professor Blažek: “Como se desdobra o acorde de sétima da dominante?”

Silêncio.

“A sétima desce, a terça sobe, a quinta sobe, a fundamental cai – E ninguém sabe.”   

Imaginei o seguinte:

A sétima não andava, a quinta não subia e a fundamental não caía. Então comecei a pensar sobre o mistério do encadeamento dos acordes.

Uma Vista da Vida e Obra, 1924

 

Durante os estudos em Praga revelou seu caráter simples, mas às vezes conflituoso. Publicou, na revista Cecílie, uma crítica às missas gregorianas, conduzidas pelo diretor da Escola de Órgão František Skuherský, e a falta de recursos para a manutenção do coral. E por isso foi imediatamente expulso da escola.

 

Recordo esse dia porque foi uma violência.

Anotação em seu caderno escolar

 

Por fim, graças à interferência de Pavel Křížkovský, pôde terminar sua formação, que deveria durar três anos, em apenas um e com excelente desempenho. Durante o tempo em que viveu em Praga, Janáček travou uma longa amizade com Antonín Dvořák. Depois voltou para Brno, onde lecionou na Escola Normal, dedicou-se intensamente à organização da vida musical da cidade, compôs e dirigiu o Coro da Orquestra Filarmônica Brno (1876-1888). Na época de Janáček, o coro da orquestra adquiriu tal grau de excelência que se tornou capaz de apresentar peças como o Réquiem, de Mozart, a Missa Solene, de Beethoven, e a cantata Stabat Mater, de Dvořák.

 

No final dos anos 1870, Janáček começou a dar aulas de piano para a filha de Emilian Schulz, diretor da Escola Normal. Logo se estabeleceu uma relação entre o rapaz de 25 anos e a jovem Zdenka. Em 1879, o compositor deixou Brno, passou pela escola de Leipzig e ingressou no Conservatório de Viena, sobre o qual diria depois “que ali não tinha mais nada a aprender.” No entanto, a verdade é que o jovem compositor, depois de ter assistido a inúmeros concertos, travou um contato profundo com a música romântica alemã e teve a possibilidade de ouvir grandes pianistas, como, por exemplo, Clara Schumann e Anton Rubinstein, mas não esqueceu a sua Zdenka. Das inúmeras composições feitas em Leipzig, dedicou-lhe a obra Zdenčiny Variace para piano, na época considerada a sua melhor obra. Ele lhe escrevia constantemente, às vezes várias cartas por dia, descrevendo em detalhes sua vida de estudante, mas também confessando seus sentimentos mais íntimos.

 

Querida, caríssima Zdenka, acho que só poderei ser feliz no futuro se, com todas as minhas forças, puder propiciar-lhe um futuro magnífico… Acredite, por favor, firmemente…

Trecho de carta para Zdenka Schulzová de 13 de outubro de 1879

 

Pouco depois de sua volta, em 1881, Janáček e Zdenka se casaram. No entanto, o futuro maravilhoso que havia sonhado para ela não se realizou. Pouco depois do casamento, passaram por uma crise séria, a primeira, que só se resolveu um ano depois, quando nasceu sua filha Olga. Na época, Janáček estava sobrecarregado de trabalho. Além de todos os compromissos profissionais já assumidos, passou a acumular o cargo de diretor e professor da escola de órgão fundada por ele mesmo, em 1881.

 

A ideia da criação da escola de órgão de Brno é minha, me dedico completamente a ela desde que comecei a idealizá-la. Quando estudava em Praga, esta ideia já me absorvia e acho que conseguir realizá-la será um dos meus maiores desafios.

Trecho de uma carta para Zdenka Schulzová de 29 de novembro de 1879

 

Ao trabalho de compositor e às responsabilidades pedagógicas acrescentou a criação da revista Hudební Listy (1884-1888), na qual publicou artigos e críticas. Graças ao seu talento, perseverança e fenomenal capacidade de trabalho, o rapaz pobre se transformou em uma pessoa respeitada em Brno.

 

Em 1887 e 1888 escreveu sua primeira ópera, Šárka, com libreto de Julius Zeyer, mas como, por suas atitudes anti-metamórficas, não era bem visto em Praga, Zeyer não permitiu que Janáček usasse seu texto. Acabou deixando a ópera de lado e só a retomou em 1919. Mesmo sendo esta a sua primeira incursão operística, depois de trinta anos ainda achava que ela tinha valor.

 

Minha Šárka? Tudo nela é tão próximo de meus últimos trabalhos!

Uma Vista da Vida e Obra, 1924

 

Depois desse fracasso e de um rompimento dramático, em 1888, com o coro da Filarmônica de Brno, se voltou, com a intensidade habitual, para a música popular. Seu interesse pela música folclórica levou-a a escrever Kytice z Národních Písní Moravských, publicada em 1890, e também se manifestou, nesta mesma época, nas composições Valašské Tance, Národní Tance na Moravě, Královničky e no balé Rákoš Rákoczy. Nesta época Janáček escreveu sua segunda ópera, Počátek Románu (O Início de um Romance), que foi apresentada em 1894, sob sua regência, no Teatro Nacional de Brno. A respeito da pequena obra, cujo texto era ingênuo, bastante simples, Janáček mais tarde escreveria:

 

Počátek románu era uma comédia vazia; não seria de bom gosto colocar nela canções nacionais. Foi escrita depois de Šárka! Me digam, sobre o que eu deveria compor?  

Poluška: Nunca conheci homem mais.

Ele nunca falou uma palavra má –

Deus o ouviu e o bosque e a floresta –

E me pediu para que viesse hoje.

Uma Vista da Vida e Obra, 1924

 

Naquela época, a família Janáček foi atingida por uma tragédia. Em 1890 morreu, de repente, seu segundo filho, Vladimír. O casal foi se afastando cada vez mais.

 

Um ao lado do outro, infelicidade comum, dor compartilhada, e cada um tão só…

Memórias: Zdenka Janáčková, Minha Vida, 1998

 

Em fevereiro de 1903 Janáček concluiu a ópera Její Pastorkyňa (em português, Sua enteada; nome original de Jenůfa). O casal passava por um dos momentos mais triste de suas vidas. Sua amada filha Olga acabara de morrer, aos 21 anos de idade.

 

Jenůfa envolveria com uma fita negra a longa doença, a dor e os lamentos de minha filha Olga e do pequeno Vladimír.  

Uma Vista da Vida e Obra, 1924

 

Janáček ofereceu então sua Jenůfa ao Teatro Nacional de Praga, mas pouco depois a ópera lhe foi devolvida com um comunicado lacônico da direção do teatro, dizendo que a obra não seria montada. Foi um grande golpe. Ele caiu em depressão, invadido por uma sensação de impotência criativa. No entanto, o Teatro Nacional de Brno aceitou montá-la, mas, apesar de ter sido bem recebida na estreia, em 21 de janeiro de 1904, a repercussão ficou restrita à região. Neste mesmo ano Janáček se aposentou para poder se dedicar integralmente à sua escola de órgão e à composição. Esta época marca também o início de suas visitas sistemáticas às termas de Luhačovice.

 

O que eu procurava nas termas? Dava aulas trinta, trinta e cinco e até quarenta horas por semana, dirigia o coral, regia concertos, liderava o coro do mosteiro de Králov, ao mesmo tempo em que compunha Jenůfa… Casei, perdi dois filhos… Precisei me esquecer de mim.

Uma Vista da Vida e Obra, 1924

 

Em uma de suas visitas a Luhačovice, conheceu Kamila Stösslová, cuja história de vida o inspirou a escrever a ópera Osud.

 

Era uma das mulheres mais lindas que conheci. Sua voz soava como uma viola de amor. As termas de Luhačovice ferviam sob o sol de agosto. Por que caminhava com três rosas flamejantes e por que falava do romance de sua juventude? E por que o seu fim era tão estranho? […] A obra, batizada de Osud – Fatum (Destino – Fatalidade), atraía pelo tom, pelas palavras tipicamente femininas.    

Uma Vista da Vida e Obra, 1924

 

A ópera, ambientada nas termas de Luhačovice, foi oferecida ao Teatro de Vinohrady, mas não foi apresentada. O motivo foram as exigências dos músicos da orquestra e dos cantores, que chegaram a fazer um abaixo-assinado dizendo que não queriam prejudicar suas cordas vocais interpretando os papéis de Osud. O problema estava, provavelmente, no libreto, bastante problemático. Esta foi a única obra de Janáček que não foi apresentada enquanto vivia. No entanto, do ponto de vista musical, Osud é uma das mais notáveis obras do compositor e não deixa de ser interessante que nela o autor usou pela primeira vez o antigo instrumento musical viola de amor, que depois também seria usado em outras composições.

 

Um momento importante para a obra de Janáček foi sua descoberta das poesias de Petr Bezruč, cuja temática social lhe era próxima.

 

Suas palavras vieram como se tivessem sido chamadas. E eu trouxe delas o tom de uma tempestade de raiva, desespero e dor.

Trecho de uma carta para Petr Bezruč de 1º de outubro de 1924

 

Janáček ofereceu parte dos cantos corais Kantor Halfar, Maryčka Magdónová e 70.000 aos membros do grupo vocal recém-formado Pěvecké Sdružení, formado por professores da Morávia. Logo o conjunto passou a se apresentar em várias cidades da Europa, mas o maior desejo do compositor – que sua Jenůfa fosse, finalmente, avaliada em Praga – não se concretizava.

 

Não quero que os senhores rejeitem mais uma vez meus reiterados pedidos para que minha ópera Jenůfa seja apresentada no Teatro Nacional de Praga baseados apenas nas críticas negativas publicadas pelos jornais da capital tcheca e daqui. Acho que isso é injusto. Estou reclamando como um compositor tcheco que não está sendo ouvido.

De uma carta para Karel Kovařovic de 9 de fevereiro de 1904

 

Janáček estava cada vez mais inseguro. Destruiu algumas de suas obras, como a composição para piano 1.X.1905 (Z Ulice) e o manuscrito de Jenůfa.

 

Eu não valorizava mais meus trabalhos ou minhas palavras. Não acreditava que algum dia alguém fosse lhes dar importância. Havia sido derrotado. Meus próprios alunos começaram a me aconselhar, a me dizer como devia compor, falar com a orquestra… Eu ria disso, era o que me restava.

De uma carta para Josef Bohuslav Foerster de 24 de junho de 1916

 

Em 1914, Janáček comemorou seus sessenta anos como um incompreendido, esquecido compositor provinciano. No entanto, isso logo mudaria.

 

Graças aos esforços diplomáticos do diretor do Clube dos Amigos da Arte de Brno, dr. František Veselý, e de sua esposa, a escritora Marie Calma, foi possível convencer Gustav Schmoranz, diretor do Teatro Nacional de Praga, e o maestro Karel Kovařovic a avaliarem a possibilidade de apresentar Jenůfa naquela casa de espetáculos. O regente exigiu que o compositor fizesse uma série de alterações, bastante radicais, principalmente na parte instrumental, e ele concordou. E assim, em maio de 1916, aconteceu a tão esperada estreia no palco de Praga. Praticamente desconhecido e subestimado até aquele momento, Janáček passou, aos 62 anos, a ser visto como um compositor que abordava com originalidade os dramas musicais, sem usar efeitos vulgares, como acontecia em algumas óperas veristas. Janáček começou a se relacionar com a cantora Gabriele Horvátová, que interpretava o papel da madrasta Kostelnička no Teatro Nacional, e também travou amizade com Max Brod, que “apareceu na hora certa, como se tivesse sido enviado pelos céus.” Brod entrou em contato com os diretores da Universal Edition e traduziu Jenůfa para o alemão. A Ópera Estatal de Viena se interessou pela ópera, que foi encenada em fevereiro de 1918. E assim Janáček começou a ser conhecido mundialmente – a Metropolitan Opera de Nova York levou Jenůfa ao palco seis anos depois. Após a estreia em Praga, Janáček concluiu a rapsódia Taras Bulba e a ópera Výlety pana Broučka.

 

Em 1918, Janáček saudou a proclamação da república com extremo entusiasmo e muitos planos para o futuro.

 

Recebo a alma jovem da nossa república com uma música jovem. Não sou daqueles que ficam olhando para trás; prefiro olhar para frente. Sei que precisamos crescer e não acho que este crescimento esteja na dor, nas lembranças do sofrimento e da opressão. Vamos nos livrar disso. Somos uma nação que deve significar alguma coisa para o mundo. Somos o coração da Europa. A Europa deve sentir este coração!

Trecho de um discurso proferido por Janáček em Londres em 1926

 

Os últimos dez anos da vida de Janáček foram os mais criativos de toda sua existência. A criatividade dinâmica, incomum, e a sua vitalidade são um mistério que o próprio compositor explica em uma das cartas que enviou a sua amiga Kamila Stösslová. Janáček a conhecera em 1917, quando ela tinha 25 anos, e a amizade durou até a morte do compositor. Ela lhe servia de inspiração, era o sonhado ideal de mulher, e não importava que a realidade fosse diferente.

 

As outras pessoas? Seus olhos estão à espreita; só tenho tido êxitos, arroubos de criatividade. De onde as pessoas tiram isso? Enigma. Eles cavam a questão como toupeiras, tentando decifrá-la. Eu gostaria muito de gritar, de erguê-la, exibi-la: Vejam, meu querido, enigma da vida!

Trecho de uma carta para Kamila Stösslová de 12 de março de 1928

 

Essa fase foi, sem dúvida, a mais produtiva de sua vida. Em 1920, escreveu o poema sinfônico Balada Blanická e um ano depois concluiu a ópera Kátia Kabanová e começou a trabalhar na ópera Příhody lišky Bystroušky (A Raposinha Esperta).

 

Envolvi-me com a Raposinha por causa da floresta e da tristeza dos últimos anos. É uma coisa alegre com um final triste e eu me coloco neste final triste.

Trecho de uma carta para Kamila Stösslová de 3 de abril de 1923

 

Em 1923, concluiu sua primeira obra para quarteto de cordas, Sonata Kreutzer, inspirado no romance de Tosltói, e compôs uma ópera inspirada no livro Věc Matropulos (O Caso Matropoulos), de Karel Čapek. Participou de eventos promovidos pela Sociedade Internacional para a Música Contemporânea (ISCM), onde se colocava ao lado jovens vanguardistas, e fez uma turnê pela Inglaterra.

 

Em 1925 foi agraciado com o título honorário de doutor pela Universidade Masaryk, em Brno, o primeiro concedido na história da instituição. Dois anos mais tarde foi nomeado membro da Academia Prussiana de Ciências, ao lado de Arnold Schoenberg e Paul Hindemith; no mesmo ano, o rei Albert, da Bélgica, o conefriu a Ordem do Rei Leopoldo, tamanha foi a impressão causada pelo sucesso de Jenůfa na Antuérpia. Seu Capricho para Piano a Uma Mão e Orquestra de Câmara foi dedicado ao pianista Otakar Hollmann, que havia perdido o braço direito na Primeira Guerra Mundial, e a peça se tornou a primeira de uma série de composições escritas por diversos autores internacionais para veteranos feridos na guerra. Ainda em 1926, Janáček escreveu sua mais famosa peça orquestral, Sinfonietta, dedicada à “sua cidade” de Brno, assim como a não menos notória Missa Glagolítica.

 

Quanto mais velho Janáček ficava, mais progressista e vigorosa sua música se tornava. Ela vinha de um homem cheio de energia e vitalidade. Após a estreia da Missa Glagolítica, o musicólogo Ludvik Kundera escreveu uma resenha em que dizia “O velho Janáček, um homem de grande fé”, ao que o compositor prontamente retrucou: “Nada disso de velho ou homem de fé. Um jovem!”

 

No ano final de sua vida, ele trabalhou na ópera Z Mrtvého Domu (Da Casa dos Mortos), baseada no romance de Dostoiévski, traduzindo e adaptando o libreto sozinho. Ele também compôs seu segundo quarteto de cordas, intitulado Cartas Íntimas, uma espécie de diário musical dedicado a Kamila Stösslová.

 

No final de julho de 1928, Janáček foi viver em Hukvaldy, e Kamila e seu filho Otto foram atrás dele. Levou na bagagem a partitura de Da Casa dos Mortos, para fazer correções e acréscimos, mas não conseguiu terminar o trabalho. Atacado por uma gripa muito forte, foi internado no sanatório do doutor Klein, em Moravská Ostrava, onde, depois de passar por um exame de raio-X, foi confirmando que estava com pneumonia. Faleceu às dez horas da manhã do dia 12 de agosto de 1928, um domingo, em Ostrava, e, três dias depois, um dos mais extraordinários compositores do século XX foi sepultado no Cemitério Central de Brno. Morreu no exato momento em que, em uma nova galeria de arte de Brno, estava havendo uma exposição da cultura contemporânea da Tchecoslováquia. A cidade estava vivendo um momento radiante, e Janáček fora quem mais contribuíra para a sua glória.

 

A Brno atual está assentada nos pilares culturais construídos por Leoš Janáček. Ainda quando era vivo, sua Escola de Órgão passou a ser chamada de Conservatório de Brno; em 1947, foi inaugurada a Academia de Artes Musicais Janáček; nove anos depois, surgiu a Filarmônica de Brno e, finalmente, em 1965 foi inaugurado, em um edifício moderno, o Teatro Janáček, onde sua obra é apresentada regularmente. Desde 2004 acontece em Brno o Festival Internacional Janáček de Ópera e Música, e em um futuro próximo será concluída a construção do Centro Janáček – uma nova sala de concertos que será a sede da Filarmônica de Brno.

 

Não fosse por essa estranha névoa emocional do meu cérebro herdado e o sangue circulando por ao meu redor na juventude da natureza majestosa! As emoções fazem o compositor; não tão cientificamente como um fundo emocional. Fico espantado com os milhares e milhares de ritmos dos mundos luminosos, sonoros e táteis, e meu tom é um ritmo eterno de natureza inesgotavelmente jovem. 

Ele vive há setenta anos! Eles o celebram. Leio em uma carta enviada de Písek: “Por que não celebram simplesmente seu nascimento?”

Uma Vista da Vida e Obra, 1924

 

Biografia publicada originalmente no site leosjanacek.eu [tcheco/inglês].
Agradecimento ao Consulado Geral da República Tcheca em São Paulo.

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