A Vida Como Ela É

A Vida Como Ela É

 

Por Irineu Franco Perpetuo

 

Quando nos debruçamos sobre a produção de nomes como Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791), Franz Schubert (1797-1828) e Felix Mendelssohn (1809-1847), é impossível não ficar espantado com a precocidade desses compositores – gente que parece que “nasceu sabendo”, de tão cedo que começou a escrever obras-primas.

 

Já o tcheco Leoš Janáček (1854-1928) é um exemplo não menos louvável de um talento de outro tipo: o que não sucumbiu à ansiedade de fama juvenil, persistiu com paciência em seu caminho, sem desistir, e só veio a receber o reconhecimento na terceira idade. Nascido no vilarejo de Hukvaldy, estudou em Leipzig e Viena, mas se manteve basicamente como um nome de reputação provinciana, em sua Morávia natal, até entrar na casa dos 60 anos.

 

O ponto de virada foi a ópera Jenůfa, que ele estreara com êxito em Brno, em 1904, mas só veio a ser encenada na capital tcheca, Praga, em 1916. Essa encenação, em meio à Primeira Guerra Mundial, foi uma avalanche: a Universal Edition promoveu performances de Jenůfa em Viena, Berlim e outras cidades do mundo germânico, e o célebre escritor Max Brod (1884-1968, responsável pela publicação póstuma dos escritos de Franz Kafka) traduziu o libreto para o alemão.

 

Janáček era apenas quatro anos mais velho do que Puccini, e parecia ser seu equivalente eslavo. Suas óperas rapidamente superaram a barreira da língua, sendo encenadas até hoje, em todo o planeta. Mesmo um intelectual arredio à música de fora do mundo germânico como Theodor Adorno chegou a chamar sua arte de “magnífica”: “todas suas tendências folclorísticas devem claramente ser contadas como parte da dimensão mais progressista da música artística europeia”. Para Adorno, tratava-se de “música verdadeiramente exótica, cujo material, embora familiar, é organizado de forma totalmente diferente do Ocidente, com um poder de alienação que o coloca em companhia da vanguarda, não da reação nacionalista”.

 

Janáček felizmente teve saúde e ânimo não apenas para desfrutar na plenitude do sucesso de Jenůfa, como ainda pôde compor várias obras em seguida. Os biógrafos costumam creditar esse florescimento criativo tardio à aparição, na vida do compositor, de uma musa: Kamila Stösslová, 38 anos mais nova, mãe de dois filhos e casada com um antiquário. O próprio Janáček também tinha laços matrimoniais, desde 1881, com Zdenka Schulzová (sua ex-aluna, 11 anos mais jovem, e mãe de seus filhos Vladimír e Olga), o que não o impediu de, aos 63 anos de idade, em 1917, arder de paixão pela moça de 25. Não há certeza quanto ao que realmente aconteceu entre Leoš e Kamila: sabe-se que o casal clandestino trocou mais de 700 cartas ardentes, e que a amada foi a inspiradora de diversas criações da última fase do compositor. Como a ópera que ouviremos hoje, Kátia Kabanová.

 

O fato de ser enamorado pelo folclore de seu país não excluía, em Janáček, o interesse por outras culturas. E ele sempre demonstrou paixão pela Rússia, país que visitou mais de uma vez, encontrando na literatura daquele país fonte constante de inspiração. Sua Pohádka (1910), para violoncelo e piano, brotou do Conto do Tsar Berendiêi, de Vassíli Jukóvski (1783-1852); a rapsódia orquestral Taras Bulba (1918) descreve três episódios da novela homônima de Nikolai Gógol (1809-1852); e sua última ópera, Da Casa dos Mortos, estreada postumamente em 1930, adapta romance de Fiódor Dostoiévski (1821-1881). Mesmo seu quarteto de cordas Sonata a Kreutzer (1923) não foi inspirado na célebre obra para violino e piano de Beethoven, mas sim na novela de Lev Tolstói (1828-1910), na qual a criação beethoveniana desempenha papel decisivo.

 

Dessa vez, resolveu se voltar para um escritor pouco conhecido no Brasil, porém fundamental para o teatro russo: o dramaturgo Aleksandr Ostróvski (1823-1886), cuja peça A Tempestade inspirara, em 1876, uma abertura em mi menor de um compositor que Janácek admirava e conheceu pessoalmente – Piotr Ilitch Tchaikóvski (que ainda compôs, em 1873, uma fantasia em fá menor baseada na peça homônima de Shakespeare – embora ambas as obras se chamem, em português, A Tempestade, os títulos em russo são diferentes).

 

Nas palavras de Jacó Guinsburg, “as construções de Ostróvski são em sua maioria habitadas por gente do povo, sendo tipicamente russas na forma, espírito e linguagem. Delas, saltam essas mesmas classes médias em seus estratos mais baixos, que seriam as principais defensoras da ‘escola natural’ e que se viam refletidas nela, com seus problemas e sua maneira de viver.”

 

Seu sucesso avassalador como dramaturgo não foi desacompanhado de polêmica. Muito pelo contrário: A Tempestade foi o epicentro de uma controvérsia que incendiou as letras russas em meados do século XIX. Acusado de plagiar o romance Madame Bovary, de Flaubert, Ostróvski recebeu críticas por romper as convenções teatrais da época. Como afirma Sonia Branco: “A narrativa possui um quadro de personagens bastante complexo e suas cenas se sucedem em deslocamentos abruptos de uns para outros desses personagens, não seguindo tradicionalmente o percurso da protagonista, e trazendo para o primeiro plano assuntos diversos e tramas paralelas; as cenas são quase estáticas e não há surpresas ao final, tendo sido o desenlace, de certa forma, anunciado no início”.

 

Para a posteridade, contudo, prevaleceu a defesa do texto feita pelo escritor Ivan Turguêniev e pelo crítico Nikolai Dobroliúbov: A Tempestade é hoje a peça mais célebre de Ostróvski, reconhecido, por seu turno, como o maior nome do realismo russo no teatro. Uma tradução tcheca, de Vincenc Červinka, foi publicada em 1918, e encenada em Brno, em 1919, chamando a atenção de Janáček. Ele mesmo adaptou o libreto, preservando a estrutura de diálogos da peça original: o resultado é uma “prosa musical” fluente afastando-se de números musicais convencionais como árias e duetos. Janáček compôs Kátia Kabanová entre 9 de janeiro de 1920 e 17 de abril de 1921, e estreou-a em Brno, sete meses mais tarde, em 23 de novembro de 1921. O compositor dedicou a arrebatada história de amor extraconjugal a Kamila Stösslová, que parece ter inspirado a caracterização musical do personagem-título.

 

Considera-se Kátia Kabanová o marco inicial do glorioso período final da carreira de Janáček, definido como “enxuto e vigoroso” por Alex Ross: “as melodias são desbastadas sem perder a graça. Os ritmos lembram a agulha de um gramofone, ora saltando, como se os sulcos do disco os aprisionassem, ora ficando mais lentos, como se alguém brincasse com a velocidade da rotação”.

 

Um ponto crucial para entender o idiossincrático melodismo de Janáček – e que faz com que seja ainda mais importante executar as obras deste autor em seu idioma original, e não em tradução – é sua relação com a linguagem falada.

 

A partir de 1897, o compositor passou a estudar e anotar a fala das pessoas. Como explica The New Grove Dictionary of Opera, “as melodias da fala não eram, em nenhum sentido, material temático para Janácek, mas, sim, material de estudo, para ajudá-lo a produzir estilizações cantadas dos padrões irregulares da fala cotidiana. O resultado foi um afastamento gradual da estrutura métrica regular nas partes vocais de suas óperas (a fraseologia regular geralmente permanece na orquestra), na direção de uma abordagem mais irregular, usando uma variedade maior de ritmos”.

 

O musicólogo Richard Taruskin assinala que, em Janáček, “a parte orquestral, que fornece a continuidade essencial nessas obras declamatórias, consiste grandemente em ostinatos extraídos das frases vocais chave (além de leitmotifs de um tipo mais convencional)”. E, para ele, o “grande laboratório” do compositor nessa técnica foi justamente Kátia Kabanová.

 

Ao analisar a cena final da protagonista na ópera, Taruskin afirma que, inicialmente, poderia ser traçado um paralelo com a cena de loucura de Lucia di Lammermoor, de Donizetti.

 

Contudo, se, no bel canto italiano, a cena de loucura era um momento de luxúria musical e ornamentação, com Janáček temos despojamento. “O que é maximizado aqui é o laconismo, ‘a fala simples’ deliberadamente desprovida de ‘poesia’, em nome da ‘verdade sem enfeites’ – a corrente realista ou naturalista da literatura e da música influenciada pela literatura do século XIX levada ao ápice”, diz Taruskin. Ou, como diria Nelson Rodrigues, “a vida como ela é”.


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A vida de Leoš Janáček (1854-1928)

♦ Kátia Kabanova | sinopse